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Wilson Oliveira, o cigano Engenheiro Informático, Mestre em informática aplicada que leciona no Politécnico de Santarém!

Sep 29
4 min read

Na cerimónia da licenciatura com os seus pais, os grandes alicerces para a sua conquista académica.
Na cerimónia da licenciatura com os seus pais, os grandes alicerces para a sua conquista académica.

Quem é o Wilson Oliveira?

Sou, no fundo, uma pessoa como qualquer outra, com sonhos e objetivos. Sou alguém guiado pela vontade de construir um bom futuro e alcançar as metas a que me proponho.


Como descreve o seu percurso até se tornar engenheiro informático e professor assistente?

O meu percurso teve muito de imprevisível. Às vezes, é pelo acaso que nos cruzamos com boas pessoas que nos apoiam e motivam ao longo da caminhada. Foi um trajeto exigente, marcado por várias dificuldades económicas, e que não teria sido possível sem a ajuda de medidas de apoio específicas que fizeram toda a diferença.


Houve algum momento-chave que tenha definido o seu caminho académico?

O momento decisivo foi ter conhecido o programa OPRE. Foi esse apoio que tornou possível concluir o meu curso superior.


Que desafios encontrou ao longo do seu percurso, particularmente enquanto jovem cigano?

Sinceramente, enquanto jovem cigano não senti grandes obstáculos devido à minha identidade. Os meus principais desafios foram sobretudo económicos. Falo daquelas condições difíceis que, infelizmente, passam de geração em geração e que tornam todo o percurso académico muito mais difícil.


Teve alguma figura de referência ou mentor que tenha sido determinante na sua trajetória?

Os meus pais foram a minha maior referência. O apoio constante deles foi o que mais determinou o meu percurso e o que mais me deu ânimo nas fases mais complicadas.


Educação e comunidade cigana

Na sua opinião, quais são hoje os principais desafios que os jovens ciganos enfrentam no acesso ao ensino superior?

Acredito que o principal desafio é a exclusão social, que se sente a vários níveis: nas amizades, na sociedade em geral e, mais tarde, na entrada para o mercado de trabalho, que afinal de contas é o grande objetivo de quem estuda.


Sente que a sua presença no ensino superior contribui para mudar estereótipos?

Sinto que sim, que ajuda a desconstruir estereótipos. Dá uma visibilidade positiva à comunidade e mostra até onde podemos chegar quando nos dão oportunidades. Mas também exige alguma precaução, porque a sociedade, quando nota um determinado rótulo, tem tendência a focar-se nele, muitas vezes de forma negativa.


De que forma?

O que ainda falta fazer para aumentar a participação de estudantes ciganos na universidade?

Na minha opinião, falta aumentar o apoio financeiro para conseguir abranger mais alunos e, além disso, criar programas de apoio ao empreendedorismo dentro da comunidade. Criar uma empresa tem a sua complexidade, o que por si só gera uma maior necessidade de continuar os estudos. Isso seria benéfico para o próprio e para a comunidade em geral. Dificilmente um empresário cigano recusaria contratar, por exemplo, um advogado cigano para a sua empresa.


Programas como o OPRE têm tido impacto real? O que poderia ser melhorado?

Acredito que o impacto é muito real e transforma vidas. Pessoas que, de outra forma, estariam limitadas ao desemprego por falta de oportunidades, passam a tê-las. Uma boa melhoria para o programa seria incluir uma vertente de mentoria focada no empreendedorismo.


Carreira profissional

Como é ser professor assistente no Politécnico de Santarém? Que áreas leciona?

Leciono unidades curriculares nas áreas de programação e de bases de dados. Foi uma escolha minha, porque sempre me recusei a ensinar matérias em que não tivesse tido nota máxima no meu tempo de estudante. Acredito que temos de dominar um tema na totalidade para o conseguir ensinar aos alunos com eficácia. O dia a dia pode, por vezes, ser cansativo. Fazemos muitas horas extra em casa para preparar aulas e avaliar trabalhos, um esforço invisível que muitas vezes não é remunerado.


Já sentiu preconceito no contexto profissional? Como lidou com isso?

Noto isso pontualmente em alguns alunos, em particular nos cursos TeSP. Às vezes, a frustração com a falta de sucesso ou de perspectivas futuras faz com que procurem um bode expiatório para os seus problemas. Nesses casos, a minha abordagem é puxar a conversa para um lado mais construtivo, evitando alimentar tópicos negativistas.


Que competências considera essenciais para um jovem que queira seguir a área da engenharia informática?

A paciência é vital para esta área. Hoje em dia, há uma vontade constante de perguntar tudo à Inteligência Artificial, mas o nosso cérebro só desenvolve verdadeiras capacidades através do esforço. E, para isso, é preciso ter a paciência de tentar, analisar e fazer as coisas por nós próprios.


O que significa, para si, ser cigano e ocupar um lugar no ensino superior?

No dia a dia, confesso que não penso muito nisso. Encaro sobretudo como um sucesso pessoal. É um enorme motivo de orgulho ter conseguido sair de um ciclo de pobreza e ser hoje tão valorizado a nível profissional.


Sente uma responsabilidade acrescida enquanto exemplo para outros jovens ciganos?

Assumir a responsabilidade de ser um exemplo é algo que me traz orgulho. Deixa-me muito feliz saber que a minha trajetória de vida pode inspirar outros jovens.


Como equilibra a sua identidade cultural com o percurso académico e profissional?

Para mim, não existe um problema em conciliar as duas coisas. A questão é que as pessoas habituam-se às soluções que já conhecem e que lhes garantem o sustento da casa. Naturalmente, quando surge um caminho diferente, para o qual não têm grandes exemplos próximos, isso gera algum medo e desconforto perante a eventualidade de não ter sucesso.


Impacto e futuro

Que mensagem gostaria de deixar aos jovens ciganos que pensam que a universidade “não é para eles”?

A mensagem que lhes deixo é clara: a universidade é o caminho para obterem a sua própria prosperidade e, possivelmente, a de todos aqueles que estão à vossa volta.


Que mudanças gostaria de ver em Portugal no que diz respeito à inclusão das comunidades ciganas?

Gostaria de ver um maior respeito e compreensão por parte da sociedade. É importante percebermos que o ponto a que chegámos hoje é resultado de muitas coisas que começaram no passado.


Onde se vê daqui a 5 ou 10 anos, tanto a nível pessoal como profissional?

Daqui a cinco ou dez anos, espero ter criado o meu próprio negócio e ter alcançado um maior grau de liberdade e autonomia.


Pergunta final (mais pessoal/reflexiva)

Se pudesse voltar atrás no tempo, que conselho daria ao Wilson mais jovem?

Sinceramente, não daria conselho nenhum. Acho que aquilo que foi feito foi um sucesso e não tenho qualquer arrependimento do caminho que tracei.

 
 
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