DESMANTELAR O PITORESCO: ORIENTALISMO, VANGUARDA E O DESAFIO DA AUTO-REPRESENTAÇÃO DA EUROPA DO LESTE NA TEORIA DA ARTE
Este artigo propõe uma reflexão crítica sobre a construção do «Outro» na história e crítica de arte do século XIX e das vanguardas do século XX, partindo da categoria do pitoresco e do discurso do Orientalismo formulado por Edward Said. Analisa-se a forma como o hiper-realismo académico (com destaque para Jean-Léon Gérôme) e a subsequente apropriação formalista modernista (Picasso, Matisse) higienizaram a violência colonial e subalternizaram as culturas não-hegemónicas. A partir deste enquadramento, o autor, bolseiro e estudante universitário cigano, interpela os silêncios da academia portuguesa e reivindica a urgência de passar de objeto de estudo e folclorização a sujeito pleno de produção de conhecimento histórico e artístico.
O EXÓTICO, O PITORESCO E A FABRICAÇÃO DO «OUTRO»
A construção da alteridade no imaginário visual do século XIX ultrapassou largamente o mero registo de realidades geográficas. Conforme demonstrou Edward Said na sua obra fundacional Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente, a criação do «Oriente» e das culturas periféricas operou como um dispositivo epistemológico e estético através do qual o Ocidente disciplinou, domesticou e exerceu autoridade sobre a diferença.
Neste cenário de hegemonia cultural, a crítica de arte oitocentista encontrava-se dividida entre dois impulsos aparentemente contraditórios, mas cúmplices:
1. Uma convenção estética que valorizava a irregularidade, o rústico e a aspereza, mas que o fazia através de uma higienização social. O pitoresco neutralizava o potencial perturbador da pobreza e da opressão, estabelecendo uma distância segura e condescendente para o olhar
contemplativo do público burguês.
2. A rutura com o cânone clássico e com a perspetiva renascentista que encontrou, na apropriação formal das culturas não-ocidentais e tribais, o motor de emancipação plástica (a valorização da linha, da expressividade crua e da bidimensionalidade).
Contudo, esta dita revolução plástica encerrou um paradoxo estrutural: para consagrar a inovação formal das vanguardas europeias, a crítica artística procedeu à obliteração sistemática das condições históricas, sociais e violentas de extraçãocolonial em que tais formas foram geradas. O «Outro» continuava desprovido de agência.
JEAN-LÉON GÉRÔME E O OLHAR COLONIAL
A pintura académica oitocentista constitui o laboratório ideal para desconstruir os mecanismos de legitimação dessa autoridade visual. Em obras como O Encantador de Serpentes (c. 1879), de Jean-Léon Gérôme, encontramos a mais depurada expressão da colonial gaze. Dotado de um virtuosismo técnico próximo do fotorrealismo, Gérôme acumulava pormenores decorativos, arquitetónicos e anatómicos exaustivos.
Como salientou a historiadora de arte feminista Linda Nochlin, a primordial função destes detalhes não era a fidelidade documental, mas sim gritar visualmente «somos reais», dissimulando que a cena era uma fantasia integralmente encenada num ateliê parisiense.
A representação articula os tropos clássicos da dominação:
o A figura da serpente e a passividade contemplativa dos assistentes projetam a ideia de uma sociedade paralisada no ócio, carente da intervenção tutelar europeia.
o Gérôme omite qualquer índice da contemporaneidade do Médio Oriente do final do século XIX, inexistem caminhos de ferro, telégrafos, relógios ou jornais. Ao retirar o tempo histórico ao referente, a pintura transforma a cultura retratada num diorama imemorial, concebido exclusivamente para consumo visual descomprometido da metrópole.
DA APROPRIAÇÃO DAS VANGUARDAS AO SILENCIAMENTO
Com a viragem para o século XX, a atitude da vanguarda perante a alteridade alterou a sua roupagem formal, mas manteve intacta a hierarquia de poder. Artistas como Pablo Picasso ou Henri Matisse foram aclamados pela rutura formal proporcionada pelo contacto com a estatuária e os padrões visuais não-europeus.
Todavia, o discurso crítico encarregou-se de isolar essas manifestações plásticas do seu tecido comunitário e espiritual vivo.
A alteridade deixou de ser fixada sob a narrativa figurativa do pitoresco oitocentista, mas passou a ser formalmente colonizada ao serviço da glória do cânone ocidental moderno. Permaneceu em vigor a máxima de Karl Marx citada por Edward Said: «Eles não podem representar a si mesmos; devem ser representados». O monopólio da representação, da crítica e da teorização
manteve-se firmemente ancorado na Europa hegemónica.

O DESAFIO DE ESCREVER A NOSSA PRÓPRIA HISTÓRIA DA ARTE
Ao concluir este ensaio de Teorias e Crítica da Arte na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, a questão que se coloca não é puramente historiográfica: é um compromisso ético, cívico e comunitário. Qual é a relevância de desmantelar o Orientalismo e a ficção do pitoresco hoje? Para um estudante universitário de etnia cigana, bolseiro do Programa OPRE a fazer o seu caminho no seio da academia portuguesa, esta discussão atinge a carne e a memória viva das nossas famílias. Ao longo dos séculos, as comunidades ciganas foram sistematicamente confinadas ao mesmo mecanismo discursivo: fomos e continuamos a ser reduzidos ao "pitoresco", transformados em figuras folclóricas de beira de estrada, corpos hipersexualizados em danças exóticas ou estereótipos criminais e assistencialistas. A nossa cultura visual, as nossas práticas de tecelagem, os nossos trajes, a nossa tradição oral e a nossa memória foram olhadas como mera curiosidade etnográfica ou matéria-prima bruta para o deleite e consumo alheio.
Quase nunca fomos lidos como produtores legítimos de arte, de pensamento e de vanguarda. Quando olho em redor nos corredores universitários e me interrogo sobre a ausência quase total de estudos críticos sobre a arte e a memória visual de origem romani produzidos por mestres e doutores portugueses, sinto um misto de revolta e uma sede inabalável de romper com essa inércia.
Recuso aceitar que continuemos a ser apenas o objeto que os outros pintam, analisam, legislam ou tutelam paternalisticamente.
A presença de estudantes ciganos no ensino superior, impulsionada de forma exemplar pelo Programa OPRE, tem o dever de ser um agente de desestabilização deste velho regime de representação. A nossa missão não é pedir licença para caber num cânone concebido para nos excluir; é ocupar os departamentos de património, de história da arte, de sociologia e de filosofia para escrever a nossa própria narrativa. Exige-se que sejamos nós a articular a crítica, a curadoria e a teorização das nossas vivências, devolvendo aos nossos pares a agência histórica que nos foi historicamente roubada. A verdadeira revolução na teoria e nas artes visuais só estará cumprida no dia em que o encontro humano não exigir a subalternização da diferença para poder apreciá-la. Para mim, e para a geração de jovens ciganos que hoje ingressa na universidade, este trabalho é o
manifesto de quem tem a ambição de ser pioneiro: não por vaidade académica individual, mas para garantir que as próximas gerações herdem uma História da Arte onde o nosso povo seja, finalmente, o autor incontornável da sua própria dignidade e beleza.

Afiliação Institucional: Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) –
Departamento de Ciências e Técnicas do Património
Âmbito Académico: Teorias e Crítica da Arte (Docente orientador: Prof. Doutor
Rui Maia)
Data: Maio / Junho de 2026



