Natanael Santos, o gestor, o contabilista, o estudante de doutoramento em Filosofia e o Cigano!

Quem é o Natanael Santos para quem ainda não o conhece?
1. Para quem não me conhece, sou um gestor, contabilista e estudante de doutoramento em Filosofia. Vivo numa pequena aldeia no concelho de Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco, bem no interior esquecido do país. Sou cigano. E, desde sempre, o meu maior passatempo é a leitura, ao ponto de ser praticamente um vício. Não sei se me considero um escritor, pelo menos, ainda não.
Como foi o teu percurso académico até chegares ao mestrado/doutoramento?
2. O meu percurso académico até chegar ao doutoramento teve os seus altos e baixos. Sempre fui bom aluno, mas, com o passar do tempo, fui perdendo a vontade de estudar, até que aos 18 anos, já no 12º ano desisti da escola. Pensava que estudar era uma perda de tempo porque não era uma coisa que um cigano fizesse.
Depois de um ano voltei aos estudos graças à insistência dos meus pais, terminei o secundário e, outra vez por causa da pressão do meu pai e da minha mãe, entrei no ensino superior. Creio que a minha vocação esteve sempre voltada para a filosofia e a literatura, porém pensei que já que ia “perder tempo” no ensino superior pelo menos que fosse uma área em que fosse fácil arranjar emprego. E foi assim que entrei em gestão. No entanto, devo admitir que acabei por gostar bastante da gestão.
Mesmo já na licenciatura não foi fácil. Não que tenha sentido alguma vez discriminação por parte de professores ou colegas, mas o sentimento de que não pertencia ali era insuportável. Com o tempo isso foi passando e quando comecei a segunda licenciatura, em gestão de recursos humanos, já era trabalhador-estudante – estatuto que mantenho até hoje.
No início deste ano abriram as candidaturas para o doutoramento e a minha candidatura e entrada eram tidas como algo óbvio. A minha família tentou convencer-me a ir para Economia, contudo deixei-me vencer pelo coração, cumprir aquela vontade que me acompanha há muito tempo e ir para Filosofia.
Que obstáculos encontraste enquanto jovem cigano no acesso à educação e ao ensino superior?
3. Sendo completamente honesto, os principais obstáculos que enfrentei no acesso à educação e ao ensino, enquanto jovem cigano, foram de cariz psicológico. Eu sabia que conseguia, toda a gente sabia que conseguia, tinha a bolsa da DGES e o apoio do OPRE. No entanto, tive, durante demasiado tempo, a sensação que aquilo não era para mim. Um cigano no ensino superior era uma coisa absurda. É claro que estava errado, mas é difícil lutar contra anos de condicionamento. Os ciganos levamos durante anos e anos com uma espécie de projeto MK Ultra por parte da sociedade que nos leva a acreditar que existem espaços que não nos pertencem
E, sinceramente, as bocas por parte da minha própria comunidade também não ajudaram. Nunca deixei de ser cigano por estudar, mas isso parece ser difícil de entender por parte de algumas pessoas.
Em algum momento sentiste que tinhas de provar mais do que os outros?
4. Sempre tive de me provar mais do que os outros. Ainda hoje tenho.
Para ser considerado um jovem português comum tive que tirar duas licenciaturas, ter 19 no mestrado, entrar na Ordem dos Contabilistas Certificados e na Ordem dos Economistas, escrever e publicar um livro aos 23 anos, aparecer nos quatro canais de televisão e provar constantemente que sou capaz. Não é justo, mas é isto ou nada.
O livro

Como nasceu a ideia de escrever o livro ?
R: 1. A ideia de escrever o livro nasceu de uma ida à Biblioteca Municipal de Idanha-a-Nova.
Estava num limbo depois de ter terminado a primeira licenciatura em que não conseguia encontrar um estágio profissional. Como sempre, passava os dias a ler e num dia qualquer decidi ir à Biblioteca requisitar alguns livros, lá encontrei a minha antiga professora de Filosofia do secundário. Depois de me lamentar que não conseguia arranjar um estágio a professora diz-me: “Sim, continue a procurar um estágio, mas o seu futuro não está aí, está na escrita!”, fiquei pensativo e perguntei: “Sobre o que escrevo?”, “Ora, sobre a sua visão do mundo.”.
Nesse dia cheguei a casa e comecei a escrever o Rumo.
Até que ponto a história do protagonista reflete a tua própria experiência?
2. O Rapaz do Rumo é claramente o meu alter ego, quase uma sombra jungiana. Só que, ao mesmo tempo, queria que qualquer pessoa se pudesse identificar com a personagem, que fosse uma espécie de significante vazio. Então em vez de contar a minha história, decidi contar a minha visão do mundo, as minhas ideias, as minhas posições e experiências.
O livro aborda uma história de superação — o que significa “superar” para ti?
3.Para mim a expressão “superar” não se trata de competir com ninguém, a quem devo superar é a mim mesmo. E com isto também não quero dizer que devo ser um Atlas revoltado, um herói neoliberal. Não, o esforço performático desmedido só leva ao burnout.
Ao que eu quero aludir é àquela frase famosa de Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo”. É um dos ensinamentos da antiguidade mais valiosos e é mais profundo do que parece, apesar da leviandade com que é citado e das distorções místicas que o seu significado sofreu. Os antigos acreditavam que te deves conhecer a ti mesmo, o problema é que dentro de ti está um monstro horrível, ou seja, os teus medos, inseguranças, o teu lado mais pequeno e mesquinho, o pior que há em ti. De seguida, deves enfrentar esse monstro, derrotar o dragão, matar Grendel, invadir Troia… Deves superar-te, ser melhor.
Há uma forte componente filosófica na obra. Que autores ou ideias te influenciaram?
4. Fui influenciado por vários autores, mas os principais creio que foram Camus, Nietzsche e Jung. Quis homenagear o Estrangeiro e a sua personagem principal, Mersault, através do Rapaz e a sua jornada pelo absurdo do mundo. No início o final do Rumo também era muito mais pesado e pessimista, com o Rapaz a ter um final parecido ao do Mersault, mas achei que não era isso que eu queria contar.
Foi aí que entrou Nietzsche, com o seu “Além do Homem”. No livro “Assim falava Zaratustra”, o filósofo alemão fala das três fases do homem que deseja superar-se, sendo elas a fase do Camelo, em que se faz parte do “rebanho” sem questionar nada, a fase do leão em que o indivíduo começa a colocar em dúvida a si mesmo e ao que o rodeia (onde tem de enfrentar o dragão chamado “tu deves”) e, por fim, a criança, em que o indivíduo de liberta das amarras e vive a sua vida de forma livre. Essa é a jornada do Rapaz, vai de ser mais um, para duvidar de tudo e terminar em paz a fazer aquilo de que gosta.
Por fim, os arquétipos jungianos estão por toda a parte. A opressão mental representada pelos prédios do bairro são um bom exemplo dessa simbologia.
Que mensagem queres que o leitor leve consigo depois de ler o livro?
5. Gostaria que, após a leitura, o leitor pudesse sentir-se inspirado a viver a sua vida sem amarras. A vida já tem dificuldades suficientes, não devemos ser nós a tornar as nossas próprias vidas mais difíceis do que já são.
Identidade cigana e sociedade
O que é ser autor cigano em Portugal?
1. Ser um autor cigano em Portugal hoje é um ato de resistência. Ou seja, é dizer que existo, sou uma pessoa e que também tenho o direito à criatividade. Não sou um monstro abstrato, os monstros abstratos não escrevem livros.
Sentiste que a tua origem influenciou o teu percurso profissional?
2. Sendo completamente sincero, não creio que tenha influenciado muito. Foi mais uma questão de classe do que racial, se bem que se Frantz Fanon lê-se isto iria ficar bastante zangado comigo.
Não fui para gestão à procura de uma justiça social ou económica para o meu povo, mas porque queria uma área que me permitisse entrar no mercado de trabalho um pouco mais facilmente, já que estava em clara desvantagem. Vendo bem, por esta perspetiva, posso dizer que até influenciou, sim.
Ainda existe resistência em aceitar pessoas ciganas em áreas como a gestão?
3. Sim, há muita resistência. Nesta última vez em que fiquei desempregado não tive muitos problemas em arranjar emprego e a verdade é que escolhi a instituição, tendo várias opções. Contudo, para isso tive de tirar duas licenciaturas, um mestrado, ganhar experiência e provar que era capaz. No início a história foi outra. Na primeira vez que procurei um estágio profissional fui rejeitado inúmera vezes e ouvi de tudo, como, por exemplo, “És bom, mas deves compreender que não nos é fácil contratar um cigano para um escritório de contabilidade como o nosso”.
Qual o papel da educação na transformação das comunidades ciganas?
4. A educação é essencial. É a melhor ferramenta que podemos ter para nos defendermos daqueles que nos perseguem, além de que nos permite abrir horizontes, compreender o mundo que nos rodeia e crescer.
Achas que a literatura pode combater preconceitos? Como?
5. A literatura é importante para combater preconceitos, uma vez que a boa literatura dá-nos diferentes perspetivas sobre vários temas, acredito que nos aproxima de diferentes realidades. Nunca pisei na Gasconha, só sei que um mosquete é uma espingarda longa e antiga e nasci em 1999, mas graças a Alexandre Dumas consegui entrar numa história sobre um mosqueteiro gascão do século XVII e identificar-me com a personagem. Precisamos de mais heróis e autores ciganos que ajudem, através da linguagem, a reestruturar a imagem que se tem de nós.
A escrita foi também uma forma de afirmação pessoal?
6. A escrita é a maior expressão de afirmação pessoal, na minha opinião. O escritor expõem-se completamente no livro, não importa o tipo de história. É numa obra de fantasia com elfos, hobbits e anéis malignos que consigo notar as influências de Tolstoi e o seu anarquismo cristão em Tolkien, além do seu desagrado com a revolução industrial. Julio Cortazar dizia que o escritor se dessangra nas suas páginas. A escrita é um tomar de posição perante o mundo.
Que responsabilidade sentes enquanto voz jovem cigana na esfera pública?
7. Talvez no sentido de tentar não piorar a imagem dos ciganos publicamente? Ainda assim não é fácil porque nas entrevistas os entrevistadores estão normalmente à espera de tornar uma piada num título sensacionalista. Creio que essa é a maior responsabilidade que sinto.
O que falta fazer em Portugal ao nível da inclusão das comunidades ciganas?
8. Acredito que falta apostar mais ainda na educação e na cultura. Levar a que cada vez mais jovens ciganos continuem os seus estudos é essencial, mas criar um gosto pela cultura é tão importante quanto.
É importante tratar as pessoas como pessoas e não como números necessários para as evidências de um projeto. É preciso apostar na educação e na cultura de uma forma humanista, direta e olhos nos olhos.
Futuro e inspiração
Pretendes continuar a escrever? Já tens novos projetos?
R: 1. Sim, quero e vou continuar a escrever. Não publiquei nada nestes últimos tempos porque achei que devia adquirir mais experiência de vida, crescer um pouco antes da próxima aventura.
Tenho vontade de experimentar outros géneros literários, não ficar preso só na crítica social presente no rumo.
O próximo projeto já está em andamento.
Que conselhos darias a jovens ciganos que querem estudar ou escrever?
2. O melhor conselho que posso dar é que apenas façam. Às vezes ficamos presos nos “ses”, não vale a pena. “Se eu for pelo caminho A vou sofrer algumas tristezas e maus bocados”, mas a verdade é que se eu for pelo caminho B também vou sofrer algumas tristezas e maus bocados só que diferentes dos do caminho A. Então aproveitem e sigam aquilo que vos der prazer e satisfação. Escrevam, mesmo que não cheguem a publicar e estudem mesmo que não arranjem emprego de imediato. Trilhem os vossos caminhos e não levem a vida tão a sério, ninguém sai dela vivo.
Como imaginas o teu futuro daqui a 10 anos?
3. Dizendo a verdade, não me consigo imaginar daqui a 10 anos. Talvez esteja a apresentar o meu livro mais recente ou a dar aulas na Sorbonne.
Não obstante, aquilo que eu quero de certeza é estar bem, em paz e satisfeito com o meu caminho.
Se pudesses deixar uma mensagem à sociedade portuguesa, qual seria?
4. Por favor olhem para a pessoa ao vosso lado e façam um esforço para ver um igual, dêem-lhe nome. Precisamos de pessoas que vêm pessoas e não conceitos abstratos.
Pergunta final (impacto)
Se tivesses de resumir o teu percurso numa palavra — qual seria e porquê?
R: Superação. Porque continuo a tentar vencer o monstro, a querer deixar as minhas pegadas no caminho e a viver da melhor forma que consigo.



