top of page
Search

Aquilo que fica por ouvir!

Sep 27
8 min read

Lara Garcia é uma jovem algarvia  de origem cigana, estudante  Ensino Superior, frequenta o 3º ano  na licenciatura de Audiologia em Coimbra.
Lara Garcia é uma jovem algarvia de origem cigana, estudante Ensino Superior, frequenta o 3º ano na licenciatura de Audiologia em Coimbra.

Há caminhos que escolhemos e outros que, simplesmente, acabam por acontecer. Audiologia não foi a minha primeira opção. Quando iniciei este percurso, não imaginava que viria a apaixonar-me por uma área que, à partida, não tinha pensado seguir. Com o tempo, fui descobrindo que, por detrás do ato de ouvir, existe muito mais do que a simples perceção de sons. Existe comunicação, existem relações e existe uma forma de nos ligarmos ao mundo e às pessoas que nos rodeiam. Foi também através deste percurso que comecei a olhar para a palavra “ouvir” de uma forma diferente. Em Audiologia, aprendemos a compreender a audição enquanto processo, a avaliá-la e a perceber a sua importância no quotidiano. Mas ouvir pode significar muito mais do que aquilo que os nossos ouvidos conseguem captar. Podemos ouvir uma voz sem verdadeiramente escutar aquilo que ela tem para dizer. Podemos estar rodeados de pessoas e, ainda assim, sentir que aquilo que somos permanece por compreender. Foi a partir desta ideia que comecei a pensar naquilo que fica por ouvir. Nas palavras que não chegam a ser ditas, nas histórias que nem sempre encontram espaço para ser contadas e nas identidades que, muitas vezes, são vistas de fora antes de serem verdadeiramente conhecidas. É neste ponto que o meu percurso académico se cruza com uma parte fundamental de quem sou. Ser cigana faz parte da minha identidade. É algo que reconheço como meu e que ninguém me pode tirar. Ao longo deste artigo, procuro refletir sobre essa ligação entre aquilo que estudo e aquilo que sou, entre ouvir e ser ouvido, entre a imagem que os outros constroem e a possibilidade de cada pessoa ter espaço para contar a sua própria história.

Ouvir não é apenas ouvir

Quando pensamos em audição, é fácil reduzi-la à capacidade de ouvir sons. No entanto, do ponto de vista da Audiologia, a experiência auditiva é muito mais complexa. Ouvir está diretamente relacionado com a forma como recebemos e interpretamos os sons que nos rodeiam, mas também com aquilo que conseguimos fazer a partir deles: comunicar, relacionar-nos, aprender e participar no quotidiano. A audição tem, por isso, um papel fundamental na comunicação humana. Através dela conseguimos perceber a fala, reconhecer vozes, acompanhar uma conversa e estabelecer uma relação com quem está à nossa volta. Quando existe uma alteração da função auditiva, as consequências podem ultrapassar a simples dificuldade em ouvir determinados sons. Podem também refletir-se na comunicação, nas relações interpessoais e na participação social. É neste ponto que a Audiologia ganha uma dimensão que vai para além da avaliação de limiares auditivos ou da identificação de uma perda auditiva. Avaliar a audição é também procurar compreender de que forma essa condição interfere na vida da pessoa e na sua capacidade de comunicar com os outros. Ao longo do meu percurso, fui percebendo que ouvir não pode ser pensado apenas como uma função do ouvido. Existe uma pessoa por detrás de cada avaliação, de cada audiograma e de cada resultado. E essa pessoa tem uma história, uma forma própria de comunicar e uma realidade que não pode ser resumida a números. Talvez seja precisamente aqui que a palavra “ouvir” comece a ganhar outro significado. Porque uma coisa é ouvir um som; outra, bastante diferente, é escutar aquilo que alguém está realmente a tentar dizer.

Quando ouvir significa escutar Ouvir e escutar são palavras que muitas vezes utilizamos como se significassem exatamente a mesma coisa. No entanto, existe uma diferença entre ambas. Ouvir está relacionado com a capacidade de receber sons; escutar implica atenção, interpretação e disponibilidade para compreender aquilo que nos está a ser comunicado. Na comunicação, esta diferença torna-se particularmente importante. Uma conversa não acontece apenas porque conseguimos ouvir as palavras de outra pessoa. Comunicar implica também prestar atenção ao que é dito, ao modo como é dito e, muitas vezes, àquilo que permanece por dizer. Escutar pressupõe reconhecer que existe alguém do outro lado, com uma experiência e uma perspetiva próprias. Esta ideia fez-me pensar que talvez o ato de escutar tenha uma dimensão que ultrapassa a própria audição. Podemos ouvir uma pessoa sem realmente compreender a sua experiência. Podemos reconhecer as suas palavras sem dar verdadeiro espaço ao seu significado. E podemos construir uma ideia sobre alguém sem nunca lhe perguntarmos quem é ou como se define. É aqui que a comunicação se cruza com a identidade. Cada pessoa tem uma história que não pode ser totalmente conhecida através de uma primeira impressão, de uma característica ou de uma ideia previamente construída. Para conhecer verdadeiramente alguém, é necessário existir espaço para que essa pessoa fale por si.

Talvez seja por isso que, ao pensar naquilo que fica por ouvir, não penso apenas nos sons que não conseguimos perceber. Penso também nas vozes que não escutamos com atenção suficiente, nas experiências que deixamos por conhecer e nas histórias que são contadas por outros antes de terem oportunidade de ser contadas por quem as vive. E é precisamente neste ponto que esta reflexão deixa de ser apenas sobre aquilo que estudo e começa a tocar também aquilo que sou. 4. Aquilo que os outros pensam ouvir A forma como vemos os outros nem sempre corresponde àquilo que realmente são. Muitas vezes, antes de conhecermos uma pessoa, já construímos uma ideia sobre ela a partir daquilo que ouvimos, vemos ou aprendemos sobre o grupo ao qual pertence. Essas ideias podem nascer da família, da sociedade, dos meios de comunicação ou simplesmente de experiências que generalizamos para além daquilo que realmente conhecemos. Quando falamos de identidade cultural, esta questão torna-se particularmente relevante. Uma comunidade não é uma realidade homogénea. É constituída por pessoas diferentes, com percursos, experiências, escolhas e formas de viver distintas. Ainda assim, é frequente que determinadas comunidades sejam representadas através de um conjunto limitado de características, como se essas características fossem suficientes para explicar todos os seus membros. A comunidade cigana não está afastada desta realidade. Ao longo do tempo, foram construídas diferentes imagens sobre as pessoas ciganas, muitas vezes a partir de representações exteriores à própria comunidade. Quando essas representações se repetem, podem transformar-se em ideias aparentemente naturais sobre quem somos, como vivemos ou aquilo que devemos ser. O problema não está apenas na existência dessas imagens, mas também na facilidade com que podem substituir o contacto com as pessoas reais. Quando acreditamos que já sabemos quem alguém é antes de o conhecer, deixamos de estar verdadeiramente disponíveis para o escutar. É por isso que penso que existe uma relação entre representação e escuta. Representar alguém implica, de alguma forma, falar sobre essa pessoa ou comunidade. Escutá-la implica permitir que também tenha espaço para falar por si. E essa diferença pode ser fundamental quando aquilo que está em causa não é apenas a forma como uma comunidade é vista, mas também a forma como ela própria se reconhece e se apresenta. Talvez seja necessário, por isso, passar de uma lógica em que se fala sobre o outro para uma lógica em que também se cria espaço para ouvir o outro. Não porque uma comunidade deva ser definida por uma única voz, mas precisamente porque nenhuma comunidade pode ser reduzida a uma única narrativa.

Uma identidade que é minha

Falar de identidade é falar de uma parte de nós que não se resume àquilo que os outros conseguem ver. Há aspetos da nossa história que fazem parte de quem somos mesmo antes de começarmos a explicá-los aos outros. No meu caso, ser cigana é uma dessas partes. A minha identidade não é algo que tenha escolhido para responder às expectativas de ninguém, nem algo que precise de ser justificado. É simplesmente parte de mim. É algo que reconheço como meu e que ninguém me tira. Ao longo do tempo, fui percebendo que a forma como nos vemos nem sempre coincide com a forma como somos vistos. Quando pertencemos a uma comunidade que é muitas vezes associada a determinadas ideias ou imagens, pode existir uma distância entre aquilo que somos e aquilo que os outros pensam saber sobre nós. É precisamente nessa distância que a possibilidade de sermos ouvidos se torna importante. Para mim, assumir a minha identidade cigana não significa que ela tenha de definir tudo aquilo que sou. Sou estudante, sou futura audiologista, tenho os meus interesses, as minhas escolhas, os meus objetivos e a minha própria maneira de ver o mundo. Ser cigana é uma parte de mim, mas não é a totalidade de mim. Talvez seja esta uma das ideias que mais se aproxima daquilo que tenho vindo a pensar ao longo deste percurso: ninguém deve ter de escolher entre aquilo que é e aquilo que quer ser. A identidade não deveria ser uma barreira à possibilidade de construir outros caminhos. E foi também nesse sentido que comecei a olhar para o meu percurso académico. Não apenas como uma escolha de curso, mas como uma parte da história que estou a construir para mim. Uma história que, tal como qualquer outra, merece ser conhecida através da minha própria voz.

Chegar também é ocupar um espaço

Chegar ao ensino superior foi também uma forma de continuar a construir o meu próprio caminho. Quando entrei na universidade, não estava apenas a iniciar um curso que, com o tempo, viria a tornar-se tão importante para mim. Estava também a entrar num espaço onde passei a conhecer pessoas diferentes, outras formas de pensar e novas possibilidades para o meu futuro. Ser uma estudante cigana no ensino superior faz parte dessa experiência. Não porque a minha identidade determine aquilo que sou capaz de fazer, mas porque faz parte da pessoa que chega todos os dias à universidade, que estuda, que aprende e que procura construir o seu próprio percurso.

Há também algo que mudou na minha própria relação com a ideia de futuro. Chegar ao ensino superior enquanto jovem cigana não é apenas entrar numa universidade e escolher um curso. É também ocupar um espaço onde nem sempre fomos vistos. O Programa OPRE fez parte desse caminho, mas aquilo que faço depois de chegar aqui também passa a ser responsabilidade minha: estudar, aprender e, sobretudo, mostrar que existem muitas histórias diferentes dentro daquilo que tantas vezes é reduzido a uma só. Neste percurso, percebi que não existe apenas uma forma de ser cigana, tal como não existe apenas uma forma de construir um futuro. Há quem siga caminhos diferentes, faça escolhas diferentes e tenha objetivos diferentes. E talvez seja precisamente essa diversidade que muitas vezes fica por ouvir quando se olha para uma comunidade apenas a partir de ideias já construídas. O meu percurso em Audiologia é, por isso, também uma parte da forma como escolho contar a minha própria história. Não pretendo que ela represente a experiência de todas as pessoas ciganas, porque cada percurso é único. Mas acredito que contar estas histórias pode ajudar a mostrar aquilo que muitas vezes não chega a ser conhecido. No fundo, chegar também é uma forma de dizer: estou aqui. E, a partir daqui, também posso falar por mim.

O que fica por ouvir

Ao longo deste percurso, fui percebendo que ouvir pode significar muito mais do que aquilo que aprendemos a medir através de uma avaliação auditiva. Em Audiologia, aprendemos a compreender a audição, a identificar alterações e a procurar formas de melhorar a comunicação. Mas, para mim, esta palavra acabou por ganhar também um significado mais pessoal. Ouvir é dar espaço. É estar disponível para conhecer aquilo que está para além da primeira impressão, daquilo que pensamos saber ou daquilo que já ouvimos dizer. É reconhecer que cada pessoa tem uma história que merece ser contada por si própria. Foi também através da minha experiência enquanto estudante de Audiologia que comecei a perceber melhor esta relação. Estudar a audição ensinou-me a valorizar aquilo que significa conseguir comunicar e participar no mundo à nossa volta. O meu percurso pessoal ensinou-me, por outro lado, que também precisamos de criar espaço para que diferentes vozes possam ser realmente escutadas.

Ser cigana é uma parte de quem sou, Ser estudante de Audiologia é outra. Estas duas dimensões não estão separadas: fazem parte do mesmo percurso e da mesma pessoa. E talvez seja precisamente nessa ligação que encontro o verdadeiro significado deste caminho. Não sei se algum dia conseguiremos ouvir tudo aquilo que existe para ouvir. Há histórias que ainda não conhecemos, experiências que ainda não compreendemos e pessoas que continuam a ser vistas antes de serem escutadas. Mas acredito que começar por ouvir de verdade já pode mudar a forma como nos relacionamos uns com os outros. No final, talvez aquilo que fica por ouvir não sejam apenas sons. São também histórias, experiências, identidades e vozes que esperam por espaço. E esta é a minha: uma entre muitas, mas minha!

 
 
bottom of page